Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 16/07/2025Narrador’s P.O.V
— Essa é a última vez que isso acontece... — ela pontuou friamente, catando as roupas que estavam jogadas no chão do quarto.
Ele nada fez. Apenas encarava o teto, ainda meio inebriado por conta do orgasmo, mas concordando em pensamento que aquilo não deveria se repetir.
Oito meses depois
O outono decidiu abraçar a agitada Buenos Aires com mais intensidade naquele ano. Os dias estavam sendo agradavelmente frescos, mas, quando eles se despediam, as noites se impunham com a violência do frio, que certamente se intensificaria quando o inverno chegasse.
As folhas secas caídas das árvores formavam um imenso tapete pelas calçadas, misturando tons de laranja, vermelho, amarelo e cobre. As crianças se divertiam ao passar por cima delas, soltando risadas gostosas a cada “croc croc” sob seus pequenos pés. As mesinhas e cadeiras já não eram mais colocadas para fora na hora do café, as pessoas preferiam se recolher para o interior aquecido dos estabelecimentos, uma vez que escurecia mais cedo e o vento insistia em agredir qualquer centímetro de pele exposta.
Essa época do ano era ótima para os negócios, mas não gostava do outono, ou pelo menos tinha aprendido a não gostar desde o último. Ela conseguia um bom dinheiro de comissão vendendo quase todos os casacos da loja onde trabalhava, mas era mais afeita ao calor úmido e aos dias longos de sol do Brasil, onde o suor escorria pela pele e a brisa quente das tardes permitia que as pessoas ficassem conversando nas portas de suas casas.
O frio da estação se colocava como um potente adversário de sua voz, e a apresentação da noite passada no Perro Azul havia acendido um alerta em sua mente quanto a isso. constatou que precisaria de mais tempo de exercício vocal antes de encarar madrugadas geladas de cantoria, mas a agenda cheia de apresentações no El Vicio e em outros pubs não dava margem para descanso ou treino. Tudo o que ela fazia era colocar em prática o seu dom. Saía da loja e já caía no próximo trabalho, sem aquecimento nem nada, apenas começava a cantar e assim ia a noite toda.
Ao deixar o shopping naquele fim de tarde, envolveu o pescoço num cachecol grosso que pegou na loja, lamentando pelo desconto considerável que viria no seu próximo pagamento, graças àquela peça exclusiva de algum estilista de nome difícil. O cachecol tinha uma cor vibrante demais para ela, quase esquisita, mas esquentava como nenhum outro. Lá fora, o céu a recebeu com tons de rosa e laranja, e, por um momento, ela pensou que talvez o outono não fosse tão ruim assim.
O som de seus passos sobre as folhas despertava nela quase que a mesma sensação de divertimento que as crianças experimentavam. O “croc croc” era mesmo gostosinho de se ouvir.
sorriu, se achando uma boba. Vinte e seis anos de idade e ela rindo de folhinhas secas sendo esmagadas pelo seu coturno tratorado.
Os cafés estavam fechando e a cidade começava a se acalmar, com menos pessoas nas calçadas e mais silêncio no ar. O fato estava dado, a mulher precisaria voltar a se acostumar com a ideia de que o outono era mais do que apenas uma estação de mudança, já que, para ela, era também um lembrete constante do quanto estava distante das coisas que amava.
A estação do metrô estava lotada naquele horário, as pessoas falavam alto e andavam depressa. Ela, já acostumada com aquilo tudo, apenas agarrava a bolsa mais ao corpo e mantinha o celular guardado no bolso, evitando de ser roubada. O olhar fixo nos trilhos, esperando pelo metrô, era quase um reflexo de como seus pensamentos também estavam acostumados a se perder entre o vai e vem das viagens diárias.
Em outra época, ele estaria ali com ela, a abraçando de lado ou por trás, evitando que qualquer pessoa tentasse algo com a sua garota. não tolerava o mínimo olhar torto ou de desejo para o lado de , para ele, era como se o mundo ao redor fosse uma constante ameaça e ela fosse a única coisa que ele realmente valorizava. Ao menos, era o que parecia antes da relação entre eles começar a ficar turbulenta demais.
Mas agora, na estação cheia, sozinha, ela não pôde deixar de sentir a falta daquela presença. Um peso estranho — estranho porque ela nunca se acostumaria e não porque não conhecia a sensação — lhe apertava o peito, enquanto o metrô finalmente chegava e ela se forçava a olhar para a frente, como se nada tivesse mudado.
’s P.O.V
Passei direto por La Boca e desci no bairro onde morava, Telmo. Eu ainda não havia me acostumado com o fato de que o outono recolhia as pessoas para dentro de casa mais cedo, o que resultava em uma calmaria estranha para um lugar tão cheio de animosidade como esse. Prestar atenção nesses detalhes só agora me faz perceber o quanto eu estava voltada para o meu próprio mundinho no outono do ano passado, quando tudo o que importava era ele.
era o tipo de cara que ocupava todos os espaços, até os que eu nem sabia que existiam. E, naquela época, eu estava tão cega, tão entregue, que nem reparei em como a cidade mudava, em como os bares ficavam vazios mais cedo, em como as árvores deixavam as folhas cobrirem as calçadas. Só via ele, o jeito como ele me olhava, como se eu fosse a única coisa boa na sua vida.
Agora, tudo o que restava era essa Buenos Aires mais fria, mais vazia, mais solitária. Eu ainda estava tentando descobrir como me encaixar de novo sem a presença dele, ditando o ritmo de tudo. A verdade é que fui tola ao acreditar que, no momento em que a gente rompesse de vez, eu conseguiria expulsá-lo da minha cabeça. Entretanto, ele continuava ali, dia após dia, mesmo eu desejando que ele tivesse partido simbolicamente também.
Com o mínimo de controle que eu tinha sobre os meus pensamentos quando se tratavam dele, o afastei — temporariamente — dali de dentro. Ao chegar ao portão de casa, vi Filipe escorado na mureta do outro lado da rua, em frente ao próprio apartamento. Acenei educadamente, e ele respondeu com um “E aí, ” numa entonação diferente da de quem te vê todos os dias. Ele parecia meio travado, como quem não sabia se devia ou não puxar assunto.
Percebi, pelo desconforto explícito no ato de desviar o rosto para o outro lado, que meu olhar tinha se demorado demais em cima dele. Mas também notei algo atravessado em sua garganta quando ele engoliu em seco, igualzinho às vezes em que aprontava alguma merda e ele se recusava a me contar.
Antes que eu pudesse questioná-lo sobre o que estava errado, Filipe já havia saído caminhando em direção a uma caminhonete velha no final da rua.
Empurrei o portão, que gemeu baixinho como sempre e entrei. A casa estava escura, só com a luz amarelada da cozinha escapando pela fresta da porta. Joguei a bolsa no sofá e tirei o cachecol do pescoço. Foi aí que senti mais uma fisgada seca na garganta, incômoda, como se algo estivesse entalado ali há dias e só agora resolvesse se manifestar.
Suspirei e segui até a cozinha, me encostei no balcão de azulejos descascados e peguei o celular do bolso, discando o número de casa no Brasil, já imaginando o sermão da minha mãe por eu “não cuidar da saúde”.
Ela atendeu no terceiro toque.
— Alô?
— Mãe, lembra aquele chá que você fazia quando eu estava ruim da garganta? De erva-doce com mel e aquele outro troço que eu sempre odiava o gosto?
Ela soltou uma risada do outro lado e, por um instante, foi como se eu ainda estivesse sentada na cozinha dela, enquanto ouvíamos o rádio tocar baixinho.
— Claro que lembro, filha. Quer que eu te passe agora?
Assenti, mesmo sabendo que ela não podia me ver.
— Manda aí. O frio aqui acaba comigo, tá foda…— Levei uma das mãos até a garganta, massageando ali.
E enquanto ela recitava a receita de cabeça, percebi o quanto eu sentia falta dessas pequenas coisas. Do cuidado genuíno, da sensação de estar em família, entre os meus. Da receita, estendemos a conversa para outros assuntos, a formatura da minha irmã, o namoradinho que ela tinha arrumado. E, pelo o que minha mãe dizia, ele parecia ser uma boa pessoa, o que era ótimo para cessar as preocupações dela. e eu já havíamos a preocupado demais com o nosso relacionamento no ano passado.
Quando resolvemos encerrar a ligação, o céu já estava completamente escuro, carregado de nuvens cinzentas. Eu ainda precisava avisar a Ramirez sobre a minha falta, mas antes, peguei um copo d’água e fiquei ali, olhando a rua silenciosa pela janela. O gole de água gelada só fez a minha garganta se arranhar ainda mais. Bufei irritada e apaguei a luz antes de ir para a sala, onde acendi apenas o abajur de canto, aquele meio torto que eu prometia arrumar há meses.
Narrador’s P.O.V
deslizou o dedo pela tela do celular até encontrar a conversa com Ramirez. Escreveu rápido, tentando não pensar demais “Ramirez, desculpa avisar em cima, mas vou ter que faltar hoje. Dor de garganta desde ontem, piorou depois da apresentação no Perro Azul. Te devo essa.”
A resposta não demorou.
“Eu te disse para não cantar naquele lugar! Mas se cuida, minha garota. O El Vicio sobrevive sem você uma noite.”
Um meio sorriso escapou. Ramirez era como um porto seguro, um dos poucos. E, como toda âncora, também carregava lembranças. Bastou a notificação desaparecer para que a memória viesse, cheia de cores e sons de uma noite antiga demais pra doer tanto, mas que ainda latejava.
Foi num sábado abafado, quando o El Vicio ainda abria às três da tarde e terminava só quando o último bêbado decidia ir embora. não trabalhava na loja naquela época e ia para o pub cedo ajudar na preparação dos petiscos, ela passava horas na cozinha com Ramirez e a esposa dele, ouvindo as fofocas mais absurdas que rodavam por ali nas noites.
Depois de um bom tempo entre cheiro de óleo quente, cebolinha picada e as piadas de duplo sentido de Ramirez, subiu para o palco. E ali ela era outra. A pele negra reluzia sob a luz mal calibrada do El Vicio, o cabelo solto ou às vezes preso num coque bagunçado, o batom vermelho — sempre vermelho —, e a voz que encantava em meio ao barulho de garrafas e risadas. se transformava. Não tinha cansaço, não tinha confusão, só ela, o microfone e a música.
No entanto, algo naquela noite a desconcertou. Cantava uma música lenta e bonita, na sua língua materna, quando percebeu um grupo de quatro caras rindo entre si. Eles lançavam olhares a ela, faziam gestos de conotação sexual e emitiam sons que remetiam a primatas. Era uma clara demonstração de um ato racista e sexista.
O pub caiu num silêncio desconfortável. Só se ouvia o som dos copos e os cochichos curiosos das pessoas. encarou o grupo com o maxilar travado, pronta para explodir. Ramirez já vinha de trás do balcão, limpando as mãos num pano de prato, mas ela ergueu a mão, o parando.
A mulher abaixou o microfone devagar, com o semblante sério e sem desviar os olhos deles.
— Eu vou descer aí, quebrar a cara de vocês quatro e quero ver tentarem falar alguma merda quando estiverem com todos os dentes da boca arrebentados.
O português dela soou firme, grave. A plateia ficou dividida. Alguns encararam o grupo com desgosto. Outros, desconfortáveis, abaixaram a cabeça. E os quatro sujeitos riram com deboche.
não blefava, ela desceu do palco com o sangue fervendo nas veias que saltavam em seu pescoço. Um dos babacas da mesa se levantou, querendo mesmo que ela tentasse alguma coisa, estava com a mão coçando para encher a cara dela.
Foi quando um rapaz que estava mais ao canto se manifestou, se colocando na frente do cara racista no momento exato em que ia com tudo para cima dele. O estranho era alto, tinha os ombros largos e os olhos eram estreitos, asiáticos. O cabelo preto tinha um comprimento mediano e, não sabia ainda, mas aquele corte de cabelo ia se tornar parte da sua perdição.
— Senta. — A voz dele veio seca, o sotaque carregado, mas a ameaça era clara.
O outro homem hesitou. Por um instante, parecia que o corpo dele não sabia se obedecia ou reagia.
— Se encostar nela, vai sair daqui cuspindo os dentes… E eu vou adorar ver isso. — Soltou como um rosnado dessa vez.
O rapaz asiático deu mais um passo, a distância entre eles era de poucos centímetros, o suficiente para que só quem estivesse perto notasse o tremor leve na mão do valentão.
— O que pensa que tá fazendo?! Eu posso muito bem cuidar disso sozinha, viu? Arregaçar a cara de um homem nunca foi problema pra mim — se pronunciou.
— Ao menos deixa que eu seguro e você bate, hm? O que acha? — ele respondeu por cima do ombro, sem se virar.
Ramirez apareceu antes que o El Vicio se tornasse palco de trocação de socos. Ele separou os dois homens prestes a se atracarem, colocando abaixo toda a tensão do pub.
— Eu adoraria ver os quatro imbecis com a cara inchada e escorrendo sangue, mas aqui dentro do El Vicio não é lugar pra isso — falou o dono.
abriu a boca, incrédula.
— Mas isso não significa que eu não vou enfiar uma faca em vocês se ousarem a passar na frente do meu estabelecimento.
Os quatro murmuraram algo entredentes, levantando as mãos como se estivessem cansados da confusão. Saíram tropeçando entre as mesas e um deles derrubou uma cadeira no caminho, mas ninguém se prestou a colocar no lugar.
respirava forte, a boca estava seca e os dedos ainda se encontravam fechados em punho. Antes de cuidar da sua menina, Ramirez encarou o asiático.
— Valeu pela força, cara — murmurou, um tom respeitoso na voz.
O rapaz apenas assentiu, seu maxilar estava travado, como se também tivesse engolido mais veneno do que gostaria.
se virou para ele, estava acesa de raiva e curiosidade.
— Quem é você, hein? Eu não pedi ajuda nenhuma!
Ali foi a primeira vez que ele sorriu de jeito debochado, olhando diretamente para seus olhos. Mesmo de cabeça quente, ela não pôde ignorar o quanto ele era bonito.
— . Se isso te interessa…
— Se acalma, pequena… Se ele não entra na frente, isso ia terminar mal. — Ramirez a abraçou, fazendo com que ela deitasse a cabeça em seu peito.
continuava com os olhos fixos no tal .
— Você tá bem? — Ramirez perguntou.
Ela apenas murmurou um ‘não’, fechou os olhos e deixou as lágrimas caírem. continuava observando a cena, sentindo um aperto no peito. Em parte, conseguia compreender a dor dela, ele mesmo já tinha enfrentado diversos atos de xenofobia no ocidente.
Mais tarde, ainda naquela noite, após Ramirez decidir fechar as portas mais cedo, vestiu seu pesado casaco de couro e saiu para fumar na rua. Acendeu um cigarro com a ponta dos dedos sujos de tinta preta do microfone e deu a primeira tragada, como se aquilo pudesse apagar o gosto ruim da noite.
— Olha, eu achei que você ia me agradecer por salvar a sua cara.
Ela deu uma tremidinha de susto, mas disfarçou em seguida. Não tinha visto que o rapaz asiático estava do outro lado da rua.
— Mete a cara numa briga que não era tua e ainda fica se achando! — ela rebateu, soltando a fumaça devagar.
Ele riu calorosamente e atravessou para onde estava, tirando um cigarro do bolso da própria jaqueta e pedindo para que ela acendesse com o seu. Ela arqueou uma sobrancelha, mas aproximou a brasa da ponta do cigarro dele.
— Pra alguém que tava prestes a esmurrar quatro marmanjos, até que ficou bonita toda nervosa.
Ela bufou, mas não conteve um meio sorriso torto.
— Você já não deveria ter ido embora?
mudou sua posição, ficando escorada de lado na parede de tijolos vermelhos, de modo que ficasse de frente para . Os olhos dele fizeram o caminho do colo desnudo até a face de expressão cansada dela.
— Estou indo. — Ele sorriu fechado, antes de levar o Marlboro até os lábios. — Toma cuidado por aí, pequena. Nem todo mundo vai ser covarde o suficiente pra tremer igual aquele cara — ele murmurou, antes de começar a se afastar.
o observou dar alguns passos e, no impulso, soltou:
— !
Ele se virou, levantando as sobrancelhas.
— Eu bato. Você segura.
abriu um sorriso mais largo dessa vez, acenou com a cabeça e desapareceu pela esquina. soltou um suspiro curto, apagou o cigarro na parede e começou a andar, mas não conseguiu evitar de pensar no jeito que ele tinha sorrido e no olhar tranquilo que deixou pra trás.
Acordei no dia seguinte, uma terça-feira, sentindo a brisa gelada da manhã invadir a minha sala pela fresta da janela. Eu certamente estava tão cansada que não me dei conta de que adormeci no sofá, sem janta e sem cobertor. Mas nada disso foi preciso, pois relembrar me alimentou e me aqueceu, fazendo esvair um pouco da falta que eu sentia dele.
Quem diria que lembranças de seriam capazes de me fazer pegar no sono com calmaria, ao invés de desespero. Isso porque aquela lembrança remetia a um tempo em que quase tudo era bom, quando a presença dele começava a me causar o famigerado e gostoso frio na barriga. Antes da convivência escancarar o quanto alguém que você gosta pode ser tão duro com você e te machucar.
Eu estaria sendo uma filha da puta hipócrita se o deixasse levar todo o mérito de namorado complicado e não admitisse que eu também não era nada fácil. Às vezes, conseguia ser tão ciumenta quanto ele, mais orgulhosa e teimosa até nas veias, mas, diferente de , eu sempre reconheci isso em mim e expressei a minha vontade de que as coisas não fossem daquele jeito.
O problema era que nosso relacionamento se resumia a extremos. Quando nos amávamos, era exageradamente intenso, assim como quando declarávamos ódio um ao outro. Subíamos ao céu e descíamos ao inferno por diversas vezes em uma única semana, e isso me quebrava em pedaços.
Pensei ter aprendido bem com Alcione que homem nenhum me faria passar por algo assim, mas, no fim das contas, eu era apenas uma jovem iniciante na arte da paixão, que acabou se tornando a figura feminina de suas letras mais angustiantes.
— Você me vira a cabeça… Me tira do sério… — cantarolei, enquanto ainda observava o teto descascado de casa, ensaiando para me levantar.
Pela manhã, a garganta já estava bem melhor. Tomei um banho demorado e deixei que a água quente escorresse pelas minhas costas. Massageei a pele com um óleo que eu guardava só pra dias assim, em que eu acordava com o humor leve e queria mantê-lo até estar de volta à cama quando anoitecesse. costumava dizer que eu tinha cheiro de canela misturado com Lucky Strike, no entanto, já fazia oito meses que eu não encostava em um, mas ainda carregava o maço na minha bolsa para manter essa característica.
Ao fim do processo de me arrumar para o trabalho, passei o delineador em um traço firme, puxado no canto e um batom escuro, porque, no fundo, sempre soube que ele achava provocante.
— Eu preciso transar com alguém pra esquecer esse cara... — Liberei em voz alta, notando o meu comportamento.
Haviam outros homens interessados em mim, com outros tipos de corpos, outras bocas, outras mãos…, mas era quase certo que nenhum deles me dariam o que eu queria. Um sexo de me deixar mansa e depois um carinho na minha pele negra e suada, reluzindo como ouro. Aquele sorriso com covinhas fundas e, por fim, um sussurro no meu ouvido, num português fofo dizendo “eu te amo, ”.
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percebeu de cara que o dia iria arrastá-la numa avalanche de memórias, mas teria de encará-lo mesmo assim, ou nunca superaria o término e seguiria em frente.
No caminho para o trabalho, as músicas que gostava — que consequentemente fizeram parte do relacionamento deles — tocavam em seu fone de ouvido, servindo de trilha sonora para o filme de recordações que passava na sua cabeça. De repente, ela estava de volta ao quarto apertado na Pousada dos Cornos, deitada sob o corpo dele, arfando a cada investida ritmada de .
Tinha sido a primeira transa deles depois de muito disfarçarem a tensão sexual contida nos flertes que davam sempre que a acompanhava até o portão de casa após o expediente no pub. Aquela aproximação começou algumas noites depois da confusão em que ele se intrometeu para livrar a pele dela.
Na esperança de reencontrar a mulher, retornou ao El Vicio. Por sorte, ficou sabendo que ela se apresentava ali com frequência.
Viu cantar em inglês, português, espanhol, e começou a imaginar como seria ter aquela voz contra os seus lábios. Existia alguma coisa no jeito dela brincar com as palavras e com o olhar que o deixava cada vez mais atraído, mal sabendo que seria condenado a rastejar de desejo sempre que pensasse nela nua depois que a visse assim pela primeira vez.
Aconteceu em um fim de tarde, após a mulher sair do trabalho no shopping, uma ocasião em que Ramirez não iria abrir o pub. tinha a convidado para o seu quartinho na Pousada dos Cornos, um lugar que não era bonito, nem muito aconchegante, mas que ao menos estava limpo e não fedia. E, pelo pouco que conhecia dela, sabia que não era do tipo que se importava com luxo.
Ao ver o táxi parar na rua lá embaixo, ele desceu rápido para recebê-la. Com as mãos suando frio dentro dos bolsos da calça e o coração batendo num frenesim incômodo.
Ao contrário de , mantinha seu ar confiante e o olhar adocicado, meigo. Se não fosse por uma mordidinha indiscreta no canto dos lábios — que a entregou —, desconfiaria de que ela estivesse ciente das suas intenções.
A mulher foi de encontro ao abraço que lhe aguardava, sentindo quase toda a tensão do seu corpo se dissipar. Era como se tivesse esperado por aquilo o dia todo, pois já tinha noção do quão reconfortante o abraço de podia ser.
As luzes tremulantes dos postes iam se acendendo aos poucos no plano de fundo, iluminando sutilmente a cena que marcava o início de uma paixão avassaladora e conturbada. se entregou no afeto, como um felino que se alinha buscando por carinho. E a acolheu, com um braço forte ao redor da cintura e a outra mão deslizando em círculos preguiçosos pelas costas dela, oferecendo o conforto que nem sabia que era capaz de transmitir.
— Que abraço gostoso, hm? — falou risonho, expondo suas covinhas.
Houve tanta entrega no gesto que aqueles poucos minutos de contato em frente ao prédio antigo pareceram se estender por muito mais tempo na percepção de ambos. só recuou o suficiente para encará-lo nos olhos e roubar um selinho, garantindo para si mais uma marca de lembrança do quanto a beleza de conseguia ser encantadora.
— Imagine quando a gente se abraçar sem roupa, lá em cima…— soltou, sem vergonha alguma.
Antes que ele pudesse responder alguma coisa, ela lhe deu um leve empurrão de brincadeira no peito e atravessou a porta da pousada primeiro. ficou parado por meio segundo, assistindo a amiga subir com aquele caminhar sexy e despreocupado, fazendo todos os babadinhos do seu vestido balançarem na medida em que andava. Quando subiu o primeiro degrau, a calcinha que usava apareceu de relance — um pedaço minúsculo de pano num tom azul claro que fez o membro do rapaz enrijecer dentro da calça.
O aroma de canela ainda pairava no ar, e continuava ali, enfeitiçado, enxergando azul em qualquer direção que olhasse, até ela encará-lo por cima do ombro para questionar com uma expressão que dizia “Tá vindo, ou vai ficar aí?”.
Subiram a escada de degraus estreitos, cujo piso de madeira antiga estalava a cada passo. O teor dos quadros pendurados nas paredes já denunciava que apenas homens moravam naquele lugar, mas disso já sabia. Se tratavam de pinturas de mulheres em poses provocantes, em tons vibrantes e traços exagerados, lembrando um pop art barato de motel de beira de estrada.
— É esse logo à frente. O 216. — Ele indicou o quarto.
Ela parou ao lado da porta e se virou de leve, encostando as costas na madeira envelhecida.
— E a chave, bonitinho? Ou vai me deixar esperando? — murmurou baixinho, em português dessa vez.
riu de nervoso. Ficava intrigado com o jeito como o português ainda dava nós no seu cérebro, principalmente quando falado por . Por pouco o tesão não embaralhou de vez os idiomas na sua cabeça.
Ele terminou de subir as escadas e se aproximou, colando o corpo ao dela.
— Pra quem esperou até hoje… — Os olhares estavam entrelaçados, um tentando ler os desejos do outro.
Sem desviar, enfiou a chave na fechadura, girou e abriu a porta. O quarto era pequeno, iluminado por uma luz fraca e tinha uma parede que separava uma sala minúscula de onde a cama e o armário ficavam.
ainda estava de costas para ele quando sentiu as mãos grandes deslizarem pelas laterais do seu corpo, parando na cintura e a puxando contra ele. O rapaz encostou os lábios no pescoço dela, respirando fundo aquele cheiro gostoso que só vinha sentindo através do vento nas últimas noites.
— Tava imaginando isso desde a primeira vez que você me deu aquele sorrisinho no palco, sabia? — A voz estava rouca de desejo.
— Sabia… Eu disfarço muito melhor do que você, .
Ele exibiu aquele sorriso cafajeste antes de ocupar sua boca na pele do pescoço dela, agora sentindo não só o cheiro, mas também o sabor de canela impregnado ali. ia se derretendo, enquanto a guiava até a velha cama de solteiro, que rangeu quando os dois se deitaram sobre ela.
Presa entre o corpo firme dele e o colchão áspero, a mulher se sentiu pequena demais, vulnerável e deliciosamente entregue.
— Azul, hein… — Puxou devagar a barra do vestido, até revelar a calcinha de renda que o tinha o atormentado na escada.
— Gosta da cor? — Ela provocou.
— Eu gosto mais do que tem dentro. — sorriu ladino. — Mas por sua causa agora é a minha cor favorita.
segurou o rosto dele entre as mãos e o puxou para um beijo profundo. Enquanto a registrava na memória pelas curvas, tateando por cima da peça que ainda a vestia, ela fazia questão de deixar seu próprio rastro, sugando a boca dele com seus lábios carnudos e escuros.
Com as testas coladas uma na outra, arfou e gemeu na pausa breve. Necessária, mas indesejada. A cueca estava ficando irritantemente apertada, e seu membro latejava em súplica por alívio. Então, como se lesse a mente dele, direcionou as mãos até o botão e zíper da calça jeans surrada, abrindo a peça com uma maestria curiosa.
Ela tinha atitude, e estava gostando disso.
As roupas foram arrancadas numa sequência de gestos urgentes. Em poucos minutos, uma deusa de pele escura se fez presente em cima daquela cama, ainda à mercê do rapaz. Não havia forma melhor de descrever o quanto era encantadora, só algo que extrapolasse a humanidade contemplaria esse fato.
A lingerie azul clara ressaltava seu lindo tom de pele. Quente e apaixonante. A renda bem justa aos seios era maravilhosa, mas só conseguia pensar em como aquilo seria melhor no chão. Ele passou a língua pelo lábio inferior e tentou prever o gosto que encontraria ali, enquanto seu olhar escorregava pelo decote generoso.
Apertou de leve um deles, testando o quanto ela aguentaria antes de ceder por completo. respondeu com uma arfada manhosa, sentindo os mamilos endurecerem sob o toque do rapaz.
não quis mais saber de rendas. Num movimento rápido, levou as mãos pelas costas dela e abriu o sutiã, revelando de vez os seios cujos mamilos eram escuros como chocolate meio amargo — do jeitinho que ele tinha imaginado uma vez, enquanto se tocava pensando nela.
A mulher mordeu o lábio inferior e abriu as pernas, deixando livre a vista para o seu paraíso molhado. A garganta de arranhou em sede. Queria chupar ali e provar o sabor, mas tinha certeza de que poderia gozar só com isso.
Depois de vestir o preservativo em si, a puxou pelo quadril, passando a perna dela por volta da sua cintura. Foi quando os olhos se encontraram num último pedido de consentimento, inconscientemente também consentindo que certas histórias nascem bonitas demais para vingar. E, apesar do aviso mudo, escolheram mergulhar. No instante seguinte, já se afundava para dentro de , sentindo ela o engolir, faminta.
— Que boceta gostosa, meu Deus…— ele murmurou, com o rosto enterrado na curva do pescoço dela.
Os pés da cama rangiam baixo em resposta aos movimentos lentos, de início, bastando um pedido de para que a lentidão se convertesse em voracidade.
— Soca com mais vontade, …
“Que mulher safada” pensou. Perfeita para ele.
Se apoiou nas coxas com mais firmeza e as investidas se tornaram mais apressadas, mais brutas. O som dos quadris se chocando estava preso no quarto pequeno, sem ter para onde escapar. E no meio do vai e vem, ele segurou o ar nos pulmões ao sentir apertá-lo lá dentro, de um jeito que quase o fez perder a cabeça.
gemeu mais alto dessa vez e mordeu o ombro dela, a fazendo se contrair novamente, só para testar até onde ele aguentaria.
— Eu tenho um fraco por homens que não reprimem o gemido… — provocou.
o agarrou pela bunda, deixando as investidas mais curtas. A mulher continuava contraindo e soltando, o trazendo mais para o fundo, onde era mais quente e apertado. Onde o teria nas mãos, se fosse só pelo sexo.
— Puta que pariu, … — A voz falhou no nome. — Continua fazendo isso, e eu juro que te encho agora mesmo…
Ela rebolou de leve, o sentindo se enterrar por completo dessa vez
— Eu quero que você goze com o meu nome na sua boca. E que me faça gozar junto…
rosnou e arqueou o corpo para trás, apertando a cintura dela com as duas mãos e a puxando contra si com força.
— Você nasceu pra isso, sabia?
sorriu como quem se reconhece num lugar onde ansiou muito estar. Ele escorregou uma das mãos para o clitóris dela, iniciando um carinho em círculos que deslizava facilmente com a lubrificação natural sobre a carne. O prazer escalonou para um outro nível e ela se sentiu mulher novamente, o que não foi capaz quando parou na cama de alguns outros homens que não sabiam onde e como tocar.
O nexo já não existia mais nas frases que vinham entre os gemidos, os últimos resquícios de juízo se perdiam na mistura de suor, afetos e expectativas de um ápice que, ao fim, poderiam definir como o melhor que tiveram em meses. Os dedos de não vacilavam, assim como suas estocadas, que iam de encontro à urgência não declarada em palavras por .
Ela arranhou as costas dele, sem saber se queria puxá-lo para mais perto ou empurrá-lo só pra tentar respirar. Chamou por com a voz embargada, e ele se inclinou para deixar um beijo em sua testa, como se desse permissão para que ela pudesse se desfazer.
As últimas investidas foram menos aceleradas, quase preguiçosas. Se alguém os visse daquele jeito, juraria que nenhum dos dois queria ter que se separar. E se perguntasse, ouviria isso de suas bocas. Então aconteceu pela primeira vez entre eles. Foi melódico o gemido que ecoou da garganta de , a reação pura de quem tinha sido levada a um lugar cuja perfeição as línguas não eram capazes de descrever naquele momento.
O desfecho veio tão forte, tão quente, que perdeu a força nos músculos das pernas ao gozar junto de . Ele jorrou tudo para dentro do preservativo, antes de deixar o corpo descansar ao lado da amiga. Essa era uma definição que já não cabia mais para quem vinha ocupando espaço na sua cabeça e no seu coração — mesmo que ele ainda tivesse receio de nomear o que começava a sentir por ela.
O quarto ficou silencioso novamente, apenas as respirações descompassadas dando o ar da graça. A mulher finalmente abriu os olhos, ainda sorrindo em êxtase, encontrando um sereno se recuperando ali perto dela, que, de alguma forma, conseguia ser ainda mais bonito com o cabelo bagunçado e pingando suor.
Ela não hesitou em se aninhar no peito dele, não tinha medo que o efeito da transa passasse e a tratasse com indiferença. Ele não era como os outros, sabia disso mesmo o conhecendo muito pouco, mas estava disposta a ficar — que fosse por uma única noite — para continuar tentando decifrar o cara que havia atravessado o mundo inteiro e, por sorte, cruzado seu caminho.
— Tá tudo bem? — perguntou, só para embasar a sua certeza.
— Tá… Eu só… — Ele sorriu. — Eu só tô assimilando o que a gente acabou de fazer.
Foi sua vez de abrir os olhos e deixar se encontrar com os dela. estava com a cabeça recostada no peito dele, como se fosse íntima há muito tempo, como ele realmente gostaria que fosse. A pele dela não cheirava mais só a canela e cigarro, agora tinha algo seu nela, a evidência do desejo recém saciado.
— Você quer passar a noite? Confesso que tô meio quebrado, mas posso pedir algo gostoso pra você comer. — Ele a fitava com certo carinho. — A comida que servem aqui é uma vergonha…
— Não esquenta. Eu pago o nosso jantar. — Isso não era um problema para não ficar. — Aliás, você precisa se mudar daqui. Sabe disso, não é?
estreitou as sobrancelhas em questionamento, a fazendo prosseguir.
— O nome é bem literal. — Riu. — É o lugar para onde os homens vêm quando recebem o digníssimo troco de suas mulheres. Nenhuma outra te contou isso?
— Outra o quê?
— Outra garota que tenha trago pra cá! — ela falou como se fosse óbvio.
Aquilo arrancou uma risada sincera de , que passava uma das mãos pelo cabelo ainda úmido.
— Nunca trouxe ninguém aqui, . — A verdade transparecia em seus olhos. — Você é a única mulher com quem fiquei desde que cheguei a Argentina.
ficou contente com aquela fala. Não que fosse se importar, nem deveria, ela mesma tinha se envolvido com alguns caras desde sua chegada, mas nenhum no mês em que conheceu . Ainda assim, gostou de saber que era a única, que ele não conhecia outras bocas no país, que não existia alguém que pudesse reaparecer e exigir satisfações sobre uma brasileira na vida dele.
— Se diz, eu acredito. — O tom era despreocupado, mas os cantos dos lábios arqueados atrapalhavam a tentativa de não demonstrar a real importância que deu para a revelação.
— Quando eu me firmar no emprego novo, vou dar um jeito de sair daqui. Se souber de algum lugar…
Ela não precisou pensar muito. Um nome e um lugar vieram à sua mente num estalo.
— Tenho um vizinho chamado Filipe, ele mora com um amigo. Estão alugando um quarto. Posso falar com ele se quiser.
A ideia era boa. Assim, poderia acompanhá-la até em casa por todas as próximas noites, sem falhar uma sequer.
— Eu adoraria ser seu vizinho. — abriu um sorriso largo, travesso, que fazia qualquer bobagem parecer uma proposta indecente.
Combinaram que ela conversaria com Filipe, talvez ele e o amigo fizessem o favor de aceitar antes que ele pudesse pagar pelo primeiro mês de aluguel do quarto.
Também pediram pizza e refrigerante, cada metade de um sabor que fosse o favorito de um deles. Antes de comerem, tomaram banho no banheiro de azulejos lascados e chuveiro de água fria, mas esses pequenos detalhes não eram capazes de apagar a felicidade estampada no rosto de .
Entre mordidas no pedaço alheio e risadas descontraídas, a vontade de permanecerem juntos foi criando raiz, dando contorno para o que sentiam, mas que ainda não sabiam colocar em palavras. Quando voltaram para a cama, já debaixo do cobertor e com as luzes apagadas, o silêncio retornou. Aquele em que perguntas importantes encontram espaço para serem feitas.
— Posso te fazer uma pergunta? — murmurou ela.
Era sensato questionar antes.
— Fique à vontade.
não tentou adivinhar o que viria, nem mesmo se preparou para mentir ou desconversar. Entendia — ao menos no início de tudo — que se o que estava sentindo era desejo de ficar ao lado dela, precisaria ser sincero, pois era feita disso.
— O que te trouxe pro outro lado do mundo? Para Buenos Aires.
— Bom… não é minha primeira vez na América do Sul. Eu sempre viajei muito com meus pais. Conheço mais lugares nesse continente do que consigo contar.
— Isso é muito legal. — reconheceu, mas sabia que ainda não justificava. E também.
— Pra ser franco, eu não deixei a Coreia exatamente por vontade própria… — Ele suspirou e desviou o olhar para o teto meio mofado. — Me meti em problemas lá.
Sustentou a mudez por alguns segundos.
— Problemas com dinheiro. — Continuou. — Peguei uma grana com a pessoa errada, não consegui pagar… e levei meus pais junto pro buraco.
— Agiota? — arqueou uma sobrancelha, sem rodeios.
— É. — assentiu. — Quando percebi o tamanho da merda, não dava mais pra resolver. Tive que dar um jeito de tirar meus pais do meio antes que sobrasse pra eles. E deu certo, mas… depois precisei desaparecer. Vim pro mais longe que consegui.
Seus olhos ficaram vagos, talvez enxergando o passado em algum ponto nas manchas esverdeadas sobre suas cabeças.
— Minha família não sabe do meu paradeiro. Acho que preferem acreditar que eu estou vivo e bem. — Respirou fundo. — Um amigo meu de infância, o Jin-Ho, é quem me mantém informado sobre eles. Só ele. Não posso arriscar contato direto, não posso… porque os caras ainda devem estar atrás de mim, e eu só consegui escapar graças à brecha mínima entre a vida e a morte.
A quietude que se deitou junto a eles depois do que havia contado não era constrangedora. Era do tipo a ser suportada em respeito às dores do outro.
deslizou a mão até o rosto dele e fez com que voltasse a encará-la.
— Você não me assustou. — respirou aliviado. — Todo mundo carrega alguma coisa, você só fez o que dava pra fazer.
Ele não respondeu, mas a forma como fechou os olhos e apoiou a testa na dela já dizia o suficiente.
— Eu não sou puramente brasileira… — Começou ela com sua própria história, a voz rouca de sono. — Eu nasci aqui na Argentina.
abriu os olhos, surpreso, mas continuaram com os rostos próximos, deixando os hálitos se esbarrarem.
— Minha mãe toda vida cozinhou. Sempre amou isso. — Uma pausa curta, respirando fundo antes de continuar. — Tinha um restaurante, ainda tem, lá em Minas. Mas ela amava viajar, conhecer a comida de outros países, e foi assim que conheceu meu pai.
Ela buscou a imagem perdida do homem na memória.
— O nome dele era Heleno. — A voz falhou um pouco na pronúncia. — Argentino, bonitão, dono de um pub aqui em Buenos Aires. Era amigo do Ramirez. Foi numa das saídas pra beber durante a viagem que eles se conheceram.
a ouvia atento, com os olhos fixos na face dela.
— Tempos depois, ele deu isso a ela. — A mulher segurou o colar fino em volta do pescoço, deixando que a pequena pedra de jade balançasse no ar, capturando a luz fraca do quarto. — Essa foi a aliança, o jeito dele pedir minha mãe em casamento.
Deu uma risadinha breve, melancólica, mordendo de leve o lábio inferior.
— Não teve anel, nem buquê, nem igreja. Teve esse colar e ele dizendo que era pra ela usar sempre, pra quando não pudesse estar por perto.
O rapaz apertou de leve a mão dela sobre o peito.
— Ele ainda tá por aqui? — Quis saber.
respirou fundo, com os olhos marejados, mas sem transbordar.
— Não… morreu meses atrás. Ninguém da família dele avisou que estava doente.
Foi preciso engolir o nó que queria tomar conta da garganta.
— Mas ele deixou uma carta, onde dizia que a casa dele ficaria pra mim. Estava registrado em letras cursivas: ‘Para Maria de Lourdes’.
O nome mais bonito que já tinha ouvido em toda a sua andança por esse mundo. O nome que passaria a incluir nas suas orações antes de dormir.
— Me diz uma coisa em coreano — pediu ela, aproveitando a coragem que o momento dava. — Qualquer coisa bonita… só pra eu ouvir.
soltou um riso baixo, acariciando a bochecha dela com o dorso dos dedos.
— Neoreul boneun sungani nae haruui jeil joheun siganiya — disse, com a voz mansa e cálida.
franziu o cenho, curiosa.
— E isso quer dizer…?
Ele hesitou um instante, mas não fugiu da resposta.
— Quer dizer que o momento em que eu olho pra você… é sempre a melhor parte do meu dia.
apertou os olhos, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair. carinhosamente a puxou pela nuca, selando os lábios macios num beijo calmo e comprido, sem pressa. Ali, já era dele, e ele, dela. Naquele momento, o relógio começava a devorar os minutos da história que eles ainda não sabiam o quanto duraria, mas que já havia se iniciado.

